As três operadoras que dominam o mercado de telefonia móvel em Portugal afirmaram nessa semana que não usarão equipamentos da Huawei em suas redes 5G no país. A medida ocorre mesmo com o governo local não proibindo a companhia chinesa de fornecer a infraestrutura crítica para a quinta geração de internet móvel.

Juntas, Vodafone, Altice e NOS atendem quase 100% dos clientes mobile em Portugal. A decisão de não usar os equipamentos da Huawei em suas redes 5G, inclui o banimento de servidores, gateways e roteadores que encaminham o tráfego para as antenas.

Uma porta-voz da NOS afirmou à agência de notícias Reuters que a empresa “não terá equipamentos Huawei em sua rede principal” e escolherá os “melhores parceiros” para cada um dos componentes da rede”. Já um representante da Vodafone Portugal declarou que “a Vodafone anunciou que sua rede 5G principal não incluirá a Huawei em suas diferentes operações. Portanto, naturalmente, a Vodafone Portugal não é exceção”. Além disso, ele citou que a operadora está trabalhando na preparação de sua rede de quinta geração “com seu parceiro histórico e preferido, a Ericsson”.

Por fim, Alexandre Fonseca, CEO da Altice Portugal, já havia afirmado em março que a empresa nem sequer incluía a Huawei em suas principais redes de telecomunicações móveis atuais. Atualmente, sua posição continua a mesma.

Recentemente, Portugal anunciou o adiamento de seu leilão de espectro 5G por seis meses, devido à pandemia de coronavírus. O evento deve acontecer apenas em outubro.

Sem razões aparentes

Nenhuma empresa deu uma razão específica para não usar a Huawei em suas redes principais. Potencialmente, suas posições deixam a porta aberta para eles usarem a fabricante chinesa em partes não essenciais do lançamento do 5G. A decisão das operadoras em relação a Huawei facilitam a vida do governo português – para quem a China é um parceiro comercial importante e os Estados Unidos também grande aliado – já que ele não precisará adotar uma postura sobre um eventual banimento.

Pedro Nuno Santos: governo português não restringiu a Huawei (foto: Wikipedia)

Até o momento, o governo português ainda não se posicionou, mas o ministro da Infraestrutura do país, Pedro Nuno Santos, disse à Reuters que “não há problemas a priori com nenhum fabricante”. Nuno Santos confirmou ainda que “ouviu dizer que a Huawei seria deixada de fora” das principais redes 5G de Portugal, mas acrescentou: “Não tem nada a ver com as opções ou imposições do governo português, que neste assunto está absolutamente alinhado com a orientação europeia”.

A questão de usar ou não a Huawei para redes móveis de próxima geração se tornou uma questão importante na Europa, em meio à intensa pressão diplomática dos Estados Unidos para proibir a fabricante chinesa. As principais redes móveis apresentam riscos de vigilância mais altos porque incorporam softwares mais sofisticados, que processam informações confidenciais, como dados pessoais dos clientes.

O ministro Nuno Santos revelou que foi criado pelo governo português um grupo para avaliar riscos e questões de segurança cibernética relacionadas ao 5G. E, ao final do trabalho, não foram tiradas conclusões direcionadas contra nenhum fornecedor em particular.

A União Europeia pede aos países do bloco que diversifiquem fornecedores de infra 5G (Foto: 5G PPP)

A Comissão Europeia vem recomendando aos Estados-membros da União Europeia (UE) a tomarem medidas urgentes para diversificar seus fornecedores de 5G. Tal medida deve diminuir a presença da Huawei na Europa. A estratégia da UE inclui a redução da dependência de países e operadoras de telecomunicações de um único fornecedor. A Huawei concorre com a Nokia e a Ericsson nesse mercado.

 

O governo da vizinha Espanha não se posicionou, embora a Telefônica tenha dito que, gradualmente, removeria a Huawei da rede principal por razões técnicas. A fabricante chinesa estava em uma lista de operadoras incluídas nos projetos-piloto 5G divulgados nesta quinta-feira (30), mas não a única ou a principal.

Procurada, a Huawei não se manifestou.

Inglaterra banirá Huawei até 2027

Ainda que esteja finalizando o seu processo de saída da União Europeia, o Reino Unido é o primeiro entre as principais economias do bloco a riscar a Huawei de sua rede de quinta geração. No último dia 14 de julho, o primeiro-ministro, Boris Johnson, anunciou que os equipamentos da fabricante chinesa que estão na sua infraestrutura 5G serão banidos da Grã-Bretanha até 2027. Além disso, a partir do final deste ano, fica proibida a compra de componentes da marca para as redes móveis de quinta geração na região. E as empresas de telecomunicações locais também serão instruídas a parar de usar a Huawei em suas infraestruturas de banda larga fixa nos próximos dois anos.

Brasil também começa a sofrer a pressão

Para além da UE, a guerra comercial e tecnológica entre EUA e China também começa a aportar no Brasil. Na última quarta-feira (29), Todd Chapman, embaixador norte-americano no Brasil, afirmou ao jornal O Globo que o país não enfrentaria represálias por escolher a Huawei para sua infraestrutura 5G, mas que “poderia sofrer consequências”.

Segundo Chapman, “cada país é responsável por suas decisões. As consequências que estamos vendo no mundo são que as empresas envolvidas na propriedade intelectual têm medo de fazer investimentos em países onde essa ela não está protegida”. A partir desta declaração, o embaixador sugere que as empresas americanas cessariam seus investimentos no Brasil, por temer que seus segredos de propriedade intelectual não estarão seguros, caso o país opte por usar a Huawei em seu 5G.

Todd Chapman: embaixador dos EUA afirma que Brasil “sofrerá consequências” se usar a Huawei em seu 5G (Foto: Departamento de Estado / EUA)

Para fazer com que as operadoras brasileiras abandonem os equipamentos da Huawei em sua infraestrutura, sem comprometer seu caixa, Chapman afirmou que a International Development Finance Corp, uma agência criada por, Donald Trump para combater a influência da China, tem US$ 60 bilhões em seus cofres. Ele declarou que o governo dos EUA concordou em disponibilizar dinheiro do fundo para ajudar os aliados que optam por comprar sua infraestrutura de telecomunicações a partir de “fornecedores confiáveis” [leia-se Nokia, Ericsson e Samsung].

fonte: https://canaltech.com.br/